Jonathan Franzen



Trecho que me fisgou do livro How to Be Alone, de Jonathan Franzen

página 69, 70 - capítulo why bother?

"Superficialmente, pelo menos, o regionalismo ainda floresce. Na verdade, é moda nas faculdades dizer que não existe mais uma América, existem apenas Américas; que as únicas coisas que uma negra lésbica de Nova Iorque e uma batista da Georgia tem em comum são a língua inglesa e o imposto de renda. A verossimilhança, entretanto, é que tanto a nova iorquina quanto a georgiana assistem Letterman toda noite, ambas estão batalhando pelo seguro de saúde, ambas possuem empregos supervisionados pela migração estrangeira, ambas vão para liquidações em super-lojas para comprar produtos da Pocahontas para seus filhos, ambas estão aumentando o cinismo através de comerciais, ambas jogam Lotto, ambas sonham com quinze minutos de fama, ambas tomam um renovador de inibição de serotonina e ambas tem uma queda culposa por Uma Thurman. O mundo de hoje é um mundo em que os valiosos dramas laterais dos costumes locais foram substituidos por um único drama vertical, o drama de uma especificidade regional sucumbindo para uma generalidade comercial. O escritor americano hoje se depara com um totalitarismo cultural análogo ao totalitarismo político que duas gerações anteriores de escritores do bloco oeste se depararam. Ignorar isso é adorar a nostalgia. Se engajar com isso, entretanto, é arriscar uma ficção que bata sempre na mesma tecla: consumismo tecnológico é uma máquina infernal, consumismo tecnológico é uma máquina infernal...

Igualmente desencorajante é a "educação" no mundo. Rudeza, irresponsabilidade, duplicidade e estupidez são marcas da interação humana real: o conteúdo das conversas, a causa da insônia. Mas no mundo do consumidor, nenhum mal é moral. O mal é o preço alto, inconveniência ,falta de escolha, falta de privacidade, azia, queda de cabelo, vias esburacadas. Isso não é nenhuma surpresa, os únicos problemas solucionáveis pela publicidade são os problemas tratados através do gasto de dinheiro. Mas dinheiro não resolve o problema da má educação - o tagarela na sala de cinema, a cunhada paternalista, o parceiro egoísta - exceto quando oferecido um refugio na privacidade atomizada. E essa privacidade é exatamente o que o século americano tende para. Primeiro a suburbanização em massa, depois a perfeição do entretenimento em casa, e finalmente a criação de comunidades virtuais cuja grande característica é que a interação com elas é inteiramente opcional - rescindível no instante que a experiência deixa de satisfazer o usuário. "

Um comentário:

Tulio disse...

que massa...
Isso vale para a discussão de "Top" sobre o que é cultura :)