rua.mp3

motivos levam a uma seleção musical pra viagens: tirar o tédio da passagem das horas, dividir com alguém ou continuar ouvindo o disco super bonder. motivos levam a abandonar a seleção: cd arranhado, outra cola maluca, botão do mp3 player que quebra ou um toca fitas faminto. uma sensação, entretanto, é batata: se por algum motivo essa seleção musical é, depois de meses, revisitada, a viagem também será. é como se a música fosse mais uma camada de tinta nas casas, o paralelepípedo roubado no chão da rua ou aquela pedrinha do rio que cortou seu pé. ou aquele sorriso.

ontem isso aconteceu comigo, consegui ouvir novamente um pacote de músicas que estava num mp3 player tecnicamente quebrado, que reviveu em plena sexta feira santa. músicas selecionadas a dedo pra uma viagem que ficaram paralisadas desde a constatação da morte.

mas naquela hora eu não estava ouvindo cardigans ou stevie wonder: estava vendo a rua, a cidade, o rio, a bicicleta, o sorriso. a música não era apenas mais segundos contados um a um. era um pedaço da minha viagem, pois era imagem. visível, palpável, pedaço. quando andamos numa rua, não pensamos no tempo que isso toma, seja cruzar quarteirões, seja subir a ladeira. ao mesmo tempo, não dá pra ver uma casa sem que os segundos sejam contados um a um. não seria verdadeiro falar que a casa apenas usa o tempo, ou que o tempo é menor, por mais tentador que pareça, mas que a música é tanto espaço quanto tempo, assim como a casa. Como não dá pra tocar a música, sobram as ruas, as casas, as bicicletas e os sorrisos. E por isso mesmo, ela toca tudo.

2 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Músicas são nossos reflexos, nossa extensão de vida - é o que gostamos e odiamos - e vivemos imersos nessas sintonias sonoras, o cotidiano se define assim, meu caro conterrâneo.

stevie wonder? ah, hoje ouvi até 'overjoy', essa música me toca por demais.

abraços!


www.bonequinhodeluxo.com


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www.incensurados.blogspot.com

Mauricio disse...

Uma vez, enquanto consultava uma revista, senti na boca o gosto do biscoito de chocolate com aveia que comi na vez da primeira leitura. Foi sinistro!